Constituted by Royal Charter. Sketch Map compiled from all available sources. London. August 1899.
Mapa de 75,2x108 cm. Original dissecado em 32 painéis montados sobre tela desdobrável. Acondicionado em pasta editorial da época em tela granulada castanha escura, com etiqueta impressa de Edward Stanford no centro da pasta anterior. Guardas decorativas.
Mapa cromolitografado à escala de 6,7 polegadas para 80 milhas (aprox. 1:750.000), com representação a cores da orografia, hidrografia e fronteiras políticas dos territórios da Companhia do Niassa, no norte de Moçambique. Inclui escala de milhas e indicação do traçado do «Proposed Railway from Pemba Bay to Lake Nyassa». No canto inferior esquerdo, brasão da Companhia do Niassa com coroa real portuguesa.
Exemplar com etiqueta de posse manuscrita «Gomes da Costa» com cota «104» no canto superior direito. Na etiqueta central de Stanford, assinatura autógrafa: «Capt. Gomes da Costa». Manchas de humidade na tela e nas pastas, pouco visíveis no mapa.
Mapa muito raro e importante para a história colonial de Moçambique. Este exemplar constitui um documento histórico primário de excepcional relevo devido à sua proveniência: pertenceu ao Capitão Manuel de Oliveira Gomes da Costa, futuro Marechal, líder da Revolução de 28 de Maio de 1926 e Presidente da República Portuguesa. Foi publicado por Edward Stanford simultaneamente como peça avulsa e como encarte na obra «Portuguese Nyassaland» de W. B. Worsfold (Londres, 1899).
A publicação deste mapa insere-se num contexto de intensa procura cartográfica sobre os territórios da África Austral em Londres. Na iminência da Segunda Guerra dos Bóeres que eclodiria em Outubro desse ano, o norte de Moçambique era então considerado estrategicamente relevante como potencial corredor de acesso. Este período coincide precisamente com a nomeação de Gomes da Costa para comandar uma expedição militar aos territórios da Companhia do Niassa.
A Companhia do Niassa (Nyassa Company) foi a última das companhias majestáticas criadas por Portugal na sequência do Ultimato Britânico de 1890, com carta régia de 1891, numa tentativa desesperada de cumprir o princípio da «ocupação efetiva» exigido pela Conferência de Berlim, mas sem ter recursos financeiros estatais para tal. Assim, embora detivesse poderes soberanos sobre as actuais províncias de Cabo Delgado e Niassa, desde o rio Rovuma ao rio Lúrio e do Oceano Índico ao Lago Niassa; o capital era maioritariamente britânico. Após uma fase inicial de especulação financeira em Lisboa e Paris (1894-1898), o controlo passou para o Ibo Syndicate e depois para o Ibo Investment Trust (1899), ambos sediados em Londres.
O traçado do «Proposed Railway from Pemba Bay to Lake Nyassa» constitui um dos elementos mais reveladores do mapa. Em Agosto de 1899, este caminho-de-ferro era uma ficção completa: não existiam carris, nem sequer um levantamento topográfico rigoroso para o seu traçado. A sua inclusão servia para atrair investidores londrinos, prometendo o escoamento das riquezas do interior e a ligação ao Lago Niassa. Como observa Neil-Tomlinson, a visão grandiosa de desenvolvimento económico — com o interior transformado em vasta região cafeeira, o litoral coberto de plantações de açúcar, e ouro, prata, ferro e carvão a fluir das jazidas identificadas — era o elemento central da especulação financeira que rodeava a Companhia.
O mapa foi encomendado a Edward Stanford, o mais prestigiado editor cartográfico de Londres, funcionando simultaneamente como instrumento da geopolítica britânica e de marketing financeiro. A designação «Sketch Map» no título admite a imperfeição dos dados cartográficos, protegendo o editor de responsabilidade legal sobre imprecisões.
Entre 1893 e 1898, a presença efectiva da Companhia limitava-se a alguns postos costeiros herdados da administração portuguesa — Ibo, Palma, Mocimboa e Quissanga — onde se cobrava imposto de palhota às populações Macua vizinhas. O interior permanecia sob controlo das chefaturas africanas: os Maconde no planalto de Mavia, os Macua entre o rio Lugenda e o oceano, e os Yao na região do Lago Niassa. O ano de 1899 representa uma mudança radical, iniciando-se uma fase de conquista e ocupação militar, forçada pela pressão internacional e pela resistência das chefaturas locais (especialmente os Macuas do Mêdo e os Yao de Mataca).
Foi neste contexto de urgência militar e necessidade de afirmação no terreno que a Companhia solicitou ao governo português o envio de oficiais do Exército para comandar as suas forças policiais e de ocupação. Em Outubro de 1899, Gomes da Costa foi nomeado para dar início às campanhas de conquista, tendo subido o Lugenda até ao território de Mtarica. A missão terminou abruptamente em Dezembro, quando Gomes da Costa se demitiu após recusar hastear a bandeira da Companhia nos postos a ocupar, exigindo que apenas fosse arvorada a Bandeira Nacional Portuguesa. Este episódio, conhecido como o «incidente da bandeira», ilustra exemplarmente as tensões entre a soberania portuguesa nominal e os interesses financeiros britânicos que controlavam efectivamente a Companhia. Em 1900, o Coronel Spilsbury atravessou da costa ao lago, levando por fim a cabo os objetivos britânicos de ocupação.
A assinatura do oficial português sobre um mapa inglês de uma empresa com capitais britânicos pode ser lida como um acto de apropriação simbólica: ao assinar o seu nome, Gomes da Costa reafirmava a autoridade portuguesa sobre o território. Quinze anos mais tarde, na Primeira Guerra Mundial, regressaria à mesma região para comandar tropas portuguesas contra os alemães ao longo do rio Rovuma — a fronteira norte representada neste mapa.
Edward Stanford (Londres, 1827 – Londres, 1904) foi o mais influente editor cartográfico britânico do século XIX. Fundou a sua firma em 1853 e obteve o título de «Geographer to Her Majesty», tornando-se agente exclusivo para a venda dos mapas do Ordnance Survey. Os seus «Library Maps» de África e Ásia eram referências para exploradores, militares e administradores coloniais. Em 1882, passou a direcção da firma ao seu filho Edward Stanford Jr.
Manuel de Oliveira Gomes da Costa (Lisboa, 1863 – Lisboa, 1929) foi militar e político português, décimo Presidente da República e segundo da Ditadura Nacional. Iniciou carreira militar no Colégio Militar aos dez anos e destacou-se nas campanhas coloniais na Índia, Moçambique, Angola e São Tomé entre 1893 e 1915. Promovido a Capitão em Janeiro de 1898, serviu em Moçambique às ordens de Mouzinho de Albuquerque nas campanhas de Gaza (1895-1897) e na expedição ao Niassa. Atingiu o posto de General e comandou a 1.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial. Em 1926, liderou a Revolução de 28 de Maio que pôs termo à I República Portuguesa, tendo exercido brevemente a Presidência da República até ser deposto por Óscar Carmona. Como historiador amador, publicou «Descobrimentos e Conquistas» em três volumes (1927-1929), obra dedicada à expansão portuguesa no Oriente.
[EN] Map measuring 75.2 x 108 cm. Original dissected into 32 panels mounted on a fold-out canvas. Packed in a contemporary editorial folder made of dark brown grainy canvas, with a printed label from Edward Stanford in the centre of the front cover. Decorative endpapers.
Chromolithographed map on a scale of 6.7 inches to 80 miles (approx. 1:750,000), with colour representation of the orography, hydrography and political boundaries of the territories of the Niassa Company in northern Mozambique. Includes a scale of miles and an indication of the route of the 'Proposed Railway from Pemba Bay to Lake Nyassa'. In the lower left corner, the coat of arms of the Niassa Company with the Portuguese royal crown.
Copy with handwritten ownership label 'Gomes da Costa' with reference number '104' in the upper right corner. On the central Stanford label, autograph signature: 'Capt. Gomes da Costa'. Damp stains on the canvas and folders, barely visible on the map.
Very rare and important map for the colonial history of Mozambique. This copy is a primary historical document of exceptional importance due to its provenance: it belonged to Captain Manuel de Oliveira Gomes da Costa, future Marshal, leader of the Revolution of 28 May 1926 becoming President of the Portuguese Republic. It was published by Edward Stanford both as a separate item and as an insert in W. B. Worsfold"s work 'Portuguese Nyassaland' (London, 1899).
The publication of this map was part of a period of intense cartographic research in London on the territories of Southern Africa. With the Second Boer War about to break out in October of that year, northern Mozambique was considered strategically important as a potential access corridor. This period coincided precisely with the appointment of Gomes da Costa to lead a military expedition to the territories of the Niassa Company.
The Nyassa Company was the last of the majestic companies created by Portugal following the British Ultimatum of 1890, with a royal charter in 1891, in a desperate attempt to comply with the principle of 'effective occupation' required by the Berlin Conference, but without the state financial resources to do so. Thus, although it held sovereign powers over the current provinces of Cabo Delgado and Niassa, from the Rovuma River to the Lúrio River and from the Indian Ocean to Lake Niassa, the capital was mostly British. After an initial phase of financial speculation in Lisbon and Paris (1894-1898), control passed to the Ibo Syndicate and then to the Ibo Investment Trust (1899), both based in London.
The route of the 'Proposed Railway from Pemba Bay to Lake Nyassa' is one of the most revealing elements of the map. In August 1899, this railway was pure fiction: there were no tracks, nor even a precise topographical survey for its route. Its inclusion served to attract London investors, promising the flow of wealth from the interior and a connection to Lake Nyassa. As Neil-Tomlinson observes, the grandiose vision of economic development — with the interior transformed into a vast coffee-growing region, the coastline covered with sugar plantations, and gold, silver, iron and coal flowing from identified deposits — was central to the financial speculation surrounding the Company.
The map was commissioned from Edward Stanford, London"s most prestigious map publisher, serving simultaneously as an instrument of British geopolitics and financial marketing. The designation "Sketch Map" in the title acknowledges the imperfection of the cartographic data, protecting the publisher from legal liability for inaccuracies.
Between 1893 and 1898, the Company"s effective presence was limited to a few coastal posts inherited from the Portuguese administration — Ibo, Palma, Mocimboa and Quissanga — where hut taxes were levied on the neighbouring Macua populations. The interior remained under the control of African chiefdoms: the Maconde on the Mavia plateau, the Macua between the Lugenda River and the ocean, and the Yao in the Lake Niassa region. The year 1899 marked a radical change, with the beginning of a phase of conquest and military occupation, forced by international pressure and resistance from local chiefdoms (especially the Macuas of Mêdo and the Yao of Mataca).
It was in this context of military urgency and the need to assert authority on the ground that the Company requested the Portuguese government to send army officers to command its police and occupation forces. In October 1899, Gomes da Costa was appointed to begin the conquest campaigns, having ascended the Lugenda to the territory of Mtarica. The mission ended abruptly in December when Gomes da Costa resigned after refusing to raise the Company"s flag at the posts to be occupied, demanding that only the Portuguese national flag be flown. This episode, known as the "flag incident", exemplifies the tensions between nominal Portuguese sovereignty and the British financial interests that effectively controlled the Company. In 1900, Colonel Spilsbury crossed from the coast to the lake, finally achieving the British objectives of occupation.
The Portuguese officer"s signature on an English map belonging to a British-owned company can be interpreted as an act of symbolic appropriation: by signing his name, Gomes da Costa reaffirmed Portuguese authority over the territory. Fifteen years later, during the First World War, he would return to the same region to command Portuguese troops against the Germans along the Rovuma River — the northern border shown on this map.
Edward Stanford (London, 1827 – London, 1904) was the most influential British cartographic publisher of the 19th century. He founded his firm in 1853 and obtained the title of "Geographer to Her Majesty", becoming the exclusive agent for the sale of Ordnance Survey maps. His "Library Maps" of Africa and Asia were references for explorers, military personnel and colonial administrators. In 1882, he handed over the management of the firm to his son Edward Stanford Jr.
Manuel de Oliveira Gomes da Costa (Lisbon, 1863 – Lisbon, 1929) was a Portuguese military officer and politician, the tenth President of the Republic and the second of the National Dictatorship. He began his military career at the Military College at the age of ten and distinguished himself in colonial campaigns in India, Mozambique, Angola and São Tomé between 1893 and 1915. Promoted to Captain in January 1898, he served in Mozambique under Mouzinho de Albuquerque in the Gaza campaigns (1895-1897) and in the Niassa expedition. He rose to the rank of General and commanded the 1st Division of the Portuguese Expeditionary Corps in the First World War. In 1926, he led the 28 May Revolution that brought an end to the First Portuguese Republic, briefly serving as President of the Republic until he was deposed by Óscar Carmona. As an amateur historian, he published Descobrimentos e Conquistas (Discoveries and Conquests) in three volumes (1927-1929), a work dedicated to Portuguese expansion in the East.
Referências/References:
The National Archives (UK), MPK 1/96.
Nakala (Huma-Num - CNRS), doi: 10.34847/nkl.dfefunq4.
Neil-Tomlinson, Barry. 'The Nyassa Chartered Company: 1891–1929'. *The Journal of African History*, Vol. 18, No. 1 (1977), pp. 109-128.
Museu da Presidência da República, Biografia de Manuel Gomes da Costa.